Entrevista do pesquisador e fundador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Eliseu Alves

Matéria sobre a entrevista do pesquisador e fundador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Eliseu Alves, ao programa de TV da Embrapa e NBR Conexão Ciência

Há décadas, a agropecuária é um dos setores mais rentáveis para economia brasileira. Mas não foi sempre assim. Até os anos 60 se produzia muito pouco e o preço dos alimentos só aumentavam. A mudança teve início com o conhecimento gerado pela pesquisa e aplicado na agricultura e na pecuária.

O conhecimento foi e continua sendo a diferença para a agricultura?

Eliseu Alves – É não só aqui no Brasil como no mundo inteiro, conhecimento é o fundamento, é a pedra que move a agricultura brasileira, e a gente tem que entender que a agricultura sempre foi baseada em conhecimento; no passado, esse conhecimento foi gerado pelos próprios agricultores, pelos seus conhecimentos desde os tempos do império romano. Os fazendeiros daquela época já faziam experimento de melhoramento de animais, de plantas e etc, mas o conhecimento organizado em instituições, cientificamente produzido, esse conhecimento é da década de 40 para cá do ponto de vista de aplicação, os princípios são dos anos de 1850, mas a aplicação desse conhecimento é da década de 40 para cá, e em larga escala, começando pelos Estados Unidos, Europa, Japão e em 1970 chegando aqui no Brasil.

E como esse conhecimento científico começou a ser construído aqui no Brasil, principalmente com aplicação na agricultura ?

Eliseu Alves – Primeiro tem a experiência de São Paulo, que é anterior, de 1860, que teve um fundamento muito importante na construção da Embrapa, tem as experiências dos institutos que a Embrapa absorveu e dos produtores, que também foram muito importantes, geraram, do período do descobrimento para cá, muito conhecimento. Agora, o conhecimento cientificamente organizado em massa, aplicado com muito recurso do governo federal e dos governos estaduais é de 1970 para cá, principalmente.

Por isso que foi necessário enviar pesquisadores para adquirir mais conhecimento?

Eliseu Alves – Havia uma crise de alimentos em meados da década de 60 e o Brasil estava acumulando uma dívida externa muito grande, então, naquele período, os militares resolveram apoiar a agricultura e criar um grupo para estudar esse assunto; foi descoberto nessa ocasião que o problema básico para o Brasil era a falta de conhecimentos moderno na agricultura brasileira. Conhecimentos tradicionais nós tínhamos aqui, a gente sabia muito bem cultivar a terra, sabia utilizar a mão de obra etc, mas, conhecimentos gerados pela ciência,a gente só tinha a experiência de São Paulo, do Rio Grande do Sul, insuficiente para o Brasil todo.

E como foi aplicar esse conhecimento moderno à realidade brasileira?

Eliseu Alves – Duas coisas, primeiramente o seguinte: você só aplica o que foi gerado, a gente só aplica o conhecimento que foi produzido, e os conhecimentos produzidos evidentemente tem que chegar às mãos dos agricultores. Quem produz é agricultor, nunca vamos perder isso de vista. O que o agricultor faz? Pega os conhecimentos do mundo inteiro, do Brasil, dos seus colegas produtores, das instituições de ciência do Brasil, montam um sistema de produção para produzir alguns produtos que ele quer, milho, soja, arroz e etc, monta esse conhecimento, compra os insumos, financia a produção, obtém a produção e vende, ou seja, tem o conhecimento. O agricultor transforma conhecimento em tecnologia e a tecnologia produz os produtos que transformaram o Brasil num grande exportador e que abastece muito bem a sua população, ricos e pobres.

E o acesso a esse conhecimento é fácil tanto para o pequeno quanto para o grande agricultor ou produtor?

Eliseu Alves – O pequeno produtor tem mais dificuldade do que o grande produtor no seguinte sentido, a pequena produção enfrenta problemas com imperfeições no mercado, vende por um preço mais barato, compra insumos por um preço mais caro, tem problemas em obter crédito, de um modo geral essas coisas são externas à produção, uma vez o conhecimento chegado lá no produtor e ele tendo condições de financiar adequadamente a sua produção, porque ele hoje já conta com uma ajuda grande do governo, que é o PRONAF e vai contar também com uma ajuda ainda maior da agência de extensão rural que está sendo criada pela presidente Dilma. Então, hoje em dia, eu acredito que essas dificuldades que eu mencionei que o pequeno produtor tem estão desaparecendo, e os pequenos produtores, que muitos deles já adotam tecnologias e produzem muito, vão seguir a mesma trilha dos médios e grandes produtores.

Em relação à inovação tecnológica, ela pode ser inserida nesse contexto? O que seria a inovação tecnológica?

Eliseu Alves – Quando você fala em inovação tecnológica, você está falando de agricultor. A inovação tecnológica é o agricultor que faz, ele que produz tecnologia nova, mas ele não gera conhecimento. A diferença está nisso, ele não gera conhecimento, a não ser em casos excepcionais. Ele pega o conhecimento, transforma esse conhecimento em tecnologia –  toda vez que ele faz isso, a gente tem uma inovação tecnológica.

Então a gente pode dizer que as nossas instituições não fazem inovação, quem faz é o agricultor?

Eliseu Alves – Nós fazemos inovação dentro de nós mesmos para poder ser mais eficientes na geração de conhecimento, as inovações que a gente tem. A Embrapa é uma grande inovação institucional. Não tinha uma instituição de pesquisa aqui no Brasil. Isso foi uma grande inovação tecnológica, mas por que essa inovação tecnológica foi feita no caso da Embrapa? Para aumentar a eficiência da pesquisa brasileira em nível do governo federal, então as instituições produzem inovação, mas quem transforma esses conhecimentos gerados em tecnologia são os agricultores, então quem faz a inovação em nível de propriedade, em nível de agricultura são os agricultores, e é muito importante que esses agricultores sejam competentes, bem treinados, bem informados com capacidade de se ligar no mundo inteiro, não só aqui no Brasil e nos principais mercados, mas no mundo inteiro.

E como está a situação hoje dos nossos agricultores em relação a outros países, como os Estados Unidos por exemplo?

Eliseu Alves – Por incrível que pareça, você acredita que não tem diferença! Eu tenho falado muito que a produção brasileira está muito concentrada Para você ter uma ideia, no censo de 2003, 500 produtores em quatro milhões e quatrocentos produziram 86% da produção Brasileira e 27 mil produtores produziram 51% dessa produção, então ela está muito concentrada. Eu fiquei muito preocupado e fui ver como isso é nos Estados Unidos e Europa. Acabei descobrindo que lá a produção está tão concentrada como aqui, ou seja, a tecnologia tem um grande poder de concentrar a produção, e esses estudos que nós fizemos na Embrapa mostram basicamente que a tecnologia é o motor da produção brasileira, é quem aumenta a produção e é também quem concentra a produção. Agora a sociedade tem que encontrar caminhos para isso, e por isso o governo está criando essa agência de extensão rural, para poder dar a chance para que os pequenos sejam capazes de sombrear com os grandes produtores, e eu não estou falando grandes de terra no meio de 100 hectares para baixo. Tem muito grande produtor, muita gente que produz uma alta quantidade de grãos, hortaliças, frutas e etc, isso não tem mais importância, quem explica essa concentração é a tecnologia.

Então o papel do pequeno é muito importante, não é?

Eliseu Alves – É claro, sempre foi muito importante, aqui no Brasil e no mundo inteiro,tanto que esse programa de agricultura familiar, é um programa de natureza mundial. Todo país dá uma ênfase enorme à agricultura familiar, porque quer evitar que a produção no seu país concentre em alguns milhares de produtores, e se deixar por conta do mercado, nós vamos terminar com 50 a 100 mil produtores, não mais do que isso, então é importante que se reconheça isso, e o governo brasileiro reconheceu isso, no sentido de criar condições para que os pequenos produtores que quiserem se modernizar tenham condição de fazer isso.

E a ANATER vai ser um facilitador para isso?

Eliseu Alves – A ANATER está sendo criada com esse objetivo, de dar igualdade de conhecimento, de tecnologia, de adoção de tecnologia para os pequenos produtores brasileiros. Com isso, a gente pode dar a entender que não foi feito nada no passado, claro que foi feita muita coisa no passado. Eu mesmo entrei na extensão rural em 1955 e entrei só para trabalhar com pequeno produtor. A ACA de Minas nesse tempo, onde eu fiz minha carreira inicial, só trabalhava com pequenos produtores, então essa ideia de trabalhar com pequenos produtores é velha aqui no Brasil, mas é uma coisa complicada porque os grandes países, como Estados Unidos, Canadá e Europa não conseguiram resolver isso até hoje

Como manter esse crescimento e esse sucesso, os bons números que a agricultura brasileira continua gerando para a economia?

Eliseu Alves – A gente tem que entender que a economia brasileira é aberta, ou seja, nós estamos competindo com o mundo inteiro, e todo mundo que vender para os chineses, para os indianos, para os Estados Unidos e para os lugares que têm demanda de alimentos. Os Estados Unidos e Europa também querem fazer a mesma coisa, então a única forma de você sobreviver nesse mercado extremamente competitivo é investir em conhecimento, e esse investimento em conhecimento tem duas dimensões: uma parte do setor público, extremamente importante e uma parte do setor privado, que está chegando agora no Brasil com investimento em pesquisas. O setor público tem uma tradição maior e tem que continuar a investir, e isso é importante não só para o governo federal, que não está falhando nesse respeito. Ele está cumprindo com seu papel, mas sobretudo para os governos estaduais que tem que apoiar os seus institutos de pesquisa.

E em relação ao passado? Como está a produção do conhecimento hoje? Ela está na mesma intensidade do passado?

Eliseu Alves – No caso da Embrapa, ela tem aumentado a sua produção de conhecimento, ela não diminui, tem muita conversa nessa direção, mas é uma conversa equivocada, o pessoal da Embrapa continua estudando no exterior, entrou um grande número de novos pesquisadores já com doutorados e mestrados, principalmente doutorado, que estão sendo treinados e incorporados. A Embrapa é uma instituição dinâmica, ela não entrou numa fase de sucesso e daí para frente entrou em declínio. Nós não estamos em uma marcha para aumentar a nossa produtividade e a nossa produção, e a mesma coisa está acontecendo com as universidades, que hoje são excelentes, e o setor privado é extremamente dinâmico também no Brasil.

Esse trabalho em rede que a Embrapa coordena do sistema nacional de pesquisa agropecuária dessas instituições tem sido também fundamental para alavancar mais ainda esse conhecimento?

Eliseu Alves – Tem exemplos muito bem-sucedidos como a rede do café. Estamos entrando na rede de energia, e no passado tivemos um sucesso muito grande com as instituições estaduais, que continua hoje. Mas acontece que os governos estaduais reduziram o financiamento para pesquisas estaduais, isso está criando alguns problemas, mas eu tenho certeza que eles serão resolvidos. Então, a rede do setor público está muito bem formada, e outra coisa importante que a gente tem que realçar é que o setor público aprendeu a trabalhar junto do setor privado e vice-versa, então já tem muitos projetos conjuntos da Embrapa com o setor privado, não só aqui do Brasil como do resto do mundo, com as multinacionais e com o mundo inteiro. Então nós aprendemos a trabalhar juntos para o bem do Brasil.

E como é a relação do agricultor com a pesquisa?

Eliseu Alves – O agricultor está atrás do conhecimento. Ele é um homem extremamente prático. Eu sou agricultor, sou produtor de leite, então o que eu quero saber é o que baixa o meu custo de produção. Eu estou lá para ganhar dinheiro porque eu tenho conta, empregados e impostos para pagar, têm as responsabilidades com o meio ambiente. Eu não tenho nenhuma influência no preço dos alimentos, nenhum agricultor isolado tem influência no preço dos alimentos, qual a única chance que eu tenho? Baixar o meu custo de produção, e para isso eu estou atrás de novas tecnologias que tenham essa propriedade de ser lucrativa.

Hoje a forma de fazer pesquisa, a gente pode dizer que mudou em relação aos anos 70 no início? Ou não?

Eliseu Alves – Essa pergunta precisa de um pouco de cuidado. Os problemas mudaram. Naquela época, o Brasil tinha uma economia fechada, não tinha competição com o resto do mundo, o setor privado não tinha condições da fazer pesquisas aqui no Brasil, então a economia hoje está aberta, nós estamos ligados com o mundo inteiro, os problemas são outros, então esses problemas nós estamos enfrentando agora, mas o método científico não mudou nada.

E quais seriam os principais problemas de hoje?

Eliseu Alves – Eu acho que os problemas principais estão ligados, uns com as coisas de hoje, você têm pragas, doenças que estão atacando a nossa agricultura, a competição internacional que eu já me referi muitas vezes aqui que a gente tem que baixar custos, tem problema no café, trigo, nós precisamos de transformar o Brasil num grande produtor de trigo, ainda dependemos muito de importações. Algodão, nós temos o problema do Nordeste, e o problema dos pequenos agricultores, os que ficaram à margem da modernização da agricultura, são numerosos, milhões, então esses são os principais problemas, e a pesquisa brasileira está antenada nesses problemas, procurando utilizar do talento, que hoje o talento é muito maior, nós temos uma quantidade muito maior de pesquisadores talentosos na Embrapa, nos institutos, nas universidades, e esse povo está aí para ajudar o Brasil a resolver os problemas da agricultura.

Dá um exemplo do que está sendo feito hoje de algum desses problemas que o senhor citou

Eliseu Alves – Eu vou citar um problema torto que tem aí, uma praga da soja que se chama ferrugem da soja. Essa ferrugem da soja não tem só aqui no Brasil, tem em outros países também. Ela é muito resistente à genética, à criação de novas cultivares, e não se conseguiu criar uma nova cultivar que fosse capaz de resolver esse problema. Então, a Embrapa, por exemplo, descobriu que tem um sapo que tem um peptídio que mata essa ferrugem, então os pesquisadores da Embrapa estão tentando pegar o gene desse peptídio e levar para a soja, já estão muito adiantados com isso, e isso é uma coisa de pesquisa de ponta e têm milhares de questões que não são do porte dessa, mas estão sendo resolvidos. Uma outra que eu vou te dar um exemplo é um caso já resolvido, tem um vírus que ataca o feijão e que é mortal, esse vírus dá na soja mas não dá no feijão, e tem uma mosca que pica a soja e transfere o vírus para o feijão, ele acaba com a lavoura do feijão. A Embrapa já desenvolveu por essas técnicas de engenharia genética uma cultivar de feijão que é resistente a essa doença, e coisas pequenas na área do leite, na área do arroz, do feijão, em todas as áreas que a Embrapa e as universidades estão metidas, estão acontecendo no mundo inteiro, inclusive a iniciativa particular está fazendo muita coisa nessa área.

Então, o que nós podemos esperar para o futuro da agricultura brasileira?

Eliseu Alves – O futuro da agricultura brasileira depende de pesquisa e de muitas outras coisas também, depende de ter uma macroeconomia estável aqui no Brasil, essa macroeconomia estável, que é o que nós temos vivido nesses 20 anos, é extremamente importante para o sucesso da nossa agricultura. Se essa macroeconomia se transformar em instável, se a inflação voltar e o governo começar a intervir na agricultura brasileira, como a da Argentina, da Bolívia e de outros países, que estão fazendo isso, nós temos a capacidade de instruir toda essa experiência que está vencendo aí. Mas eu tenho certeza que os políticos brasileiros atingiram a grande maturidade e jamais vão deixar acontecer uma coisa dessas aqui no Brasil, no âmbito do governo da presidente Dilma, evidentemente isso não tem a menor chance de acontecer.

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