Sua empresa funciona tão bem quanto uma escola de samba?

Por Marcos Morita

Goste ou não de batuque, a verdade é que o carnaval bate novamente em nossas portas, desta vez um pouco mais tardio. A maioria já voltou de férias e está no batente há algumas semanas, o que faz esta parada estratégica, seja para rasgar a fantasia, assistir aos desfiles, viajar ou simplesmente não fazer nada, curtindo as capitais vazias. Não obstante as críticas, o fato é que o ano irá de fato começar após a 4ª feira de cinzas, esteja você sóbrio ou de ressaca. E já que o tema é carnaval, sabia que as empresas têm muito a aprender com as escolas de samba?

Nós brasileiros, acostumados a acompanhar os desfiles desde criança, pouco reparamos no planejamento, organização e execução do evento, focando nossas atenções às pirotecnias de carnavalescos brilhantes como Joãozinho Trinta, da Beija Flor, ou Paulo Barros, da Unidos da Tijuca, que trouxeram o circo, o cinema e a tecnologia para a avenida em atrações de tirar o fôlego até para quem não gosta de folia. Colocado o pano de fundo, vejamos então as lições que podemos extrair destas agremiações.

Enredo: proveniente do verbo enredar, significa literalmente prender na rede, entrelaçar. Em uma história, seria o ato de juntar as ações numa sequência lógica de espaço e tempo. As agremiações o escolhem logo após o término do Carnaval, o qual guiará o tema, a fabricação das fantasias, as alegorias e a composição do samba do próximo ano: quesitos que precisam estar em perfeita sintonia com o enredo. Já pensou quantas empresas encontram dificuldades em alinhar os objetivos de seus colaboradores, a estratégia e as metas fixadas pela alta direção?

Evolução e conjunto: velocidade, forma, animação, movimentação, compactação e uniformidade são critérios avaliados pelos jurados. Eventuais buracos nas alas ou alterações bruscas na velocidade do desfile são passives de penalização. Imagine agora integrantes desentrosados, desconfiados e desmotivados. Certamente a visão de conjunto e a evolução ficariam bastante comprometidas. Empresas com clima organizacional ruim e líderes que não inspiram, dificilmente podem esperar equipes de alto desempenho, animadas, uniformes e motivadas.

Mestre-sala e porta-bandeira: graciosidade, fantasia e bailado são critérios para o casal que literalmente carrega o estandarte da escola. Comprometidos, em geral nasceram, cresceram e irão permanecer na comunidade ou agremiação, por ela doando parte de seu tempo e dedicação. Impensável seria aceitar uma proposta para desfilar em outra escola. Executivos e profissionais por sua vez têm seus empregos garantidos enquanto convenientes às empresas. Neste cenário, vendem seu tempo e esforço, porém morrer pelo patrão é coisa do passado.

Bateria: a ala mais empolgante de uma escola de samba, cujo objetivo é acompanhar o canto e conduzir o ritmo do desfile. Vale citar a história do Mestre André criador da “paradinha”, movimento no qual a bateria subitamente para de tocar, deixando só o cavaquinho e a voz dos puxadores. Apesar de bem avalido pela crítica, sua utilzação aumenta as chances que o samba “atravesse”, podendo a bateria retornar ao ponto errado da letra. Num ano que promete ser tão ou mais enfadonho que 2013, o que sua empresa têm feito para seus funcionários não percam o pique?

Os mais ligados aos desfiles talvez tenham sentido falta da comissão de frente, rainha da bateria, ala das baianas e velha guarda, elementos que compõem a intrincada teia de uma escola de samba. Integrá-los e colocá-los na avenida em uma hora de desfile, coordenando mais de duas mil pessoas motivadas, entrosadas e com o mesmo propósito e objetivos, é tarefa que poucos CEOS conseguiriam, considerando o pouco tempo de treino e o fato de que a grande maioria dos integrantes está ali por vontade própria, sem nada receber.

Talvez você não tenha a mesma criatividade de um grande carnavalesco, a energia de um puxador de samba enredo, a graciosidade de um porta-bandeira, nem queira que seus funcionários saiam vestidos de baianas. Porém, comprometimento, doação, motivação e harmonia são quesitos que não fazem mal a nenhuma equipe. Enfim, ainda que não vá para avenida, talvez valha a pena levar algumas de suas lições para o mundo corporativo. Só não queira colocá-las em prática na 4a feira de cinzas. É “atravessar” na certa.

Marcos Morita é mestre em Administração de Empresas, professor da Universidade Mackenzie e professor tutor da FGV-RJ. Especialista em estratégias empresariais, é colunista, palestrante e consultor de negócios. Há mais de quinze anos atua como executivo em empresas multinacionais.

 

Sobre Marcos Morita:

www.marcosmorita.com.br

professor@marcosmorita.com.br

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