Folha de S. Paulo
22 Set 2014
O coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas, Roberto Rodrigues, diz ainda haver desconfiança a respeito de Marina Silva. Para que a candidata a presidente pelo PSB dissipe dúvidas, terá de “reescrever” parte do seu programa antes do final da campanha eleitoral.
Rodrigues foi ministro da Agricultura de 2003 a 2006, durante o primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Em entrevista ao programa Poder e Política, da Folha e do “UOL”, ele afirma que o setor passa por uma crise devido ao preço desfavorável do etanol em relação à gasolina. A solução, defende, passa pela retomada da Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico), empréstimos do BNDES para modernizar as caldeiras e uma política governamental de longo prazo.
Para Rodrigues, a magnitude da ajuda necessária para o setor é equiparável ao Proer [Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional], implementado em 1995 no início do governo de Fernando Henrique Cardoso para sanear bancos em dificuldade.
No primeiro turno da eleição presidencial, Roberto Rodrigues afirma que votará em Aécio Neves (PSDB). No segundo turno, se a disputa ficar entre Marina e Dilma Rousseff (PT), não revela sua preferência. Dá a entender que ele e muitos empresários do agronegócio vão aguardar mais compromissos de ambas as candidatas.
NÓS [DO SETOR SUCROENERGÉTICO] ESTÁVAMOS CRESCENDO 10% AO ANO, DE 2003 A 2009. DEPOIS, COMEÇOU A CAIR 1% AO ANO, UMA SITUAÇÃO HORROROSA.”
Diz que Dilma “não é” campeã de popularidade do setor. E que a petista e Marina Silva “têm que olhar para o setor com especificidades”. Acha que a candidata do PSB parece ter demonstrado “uma disposição ao diálogo muito maior que no passado. (…) As pessoas aprendem mais, isso é possível, todo mundo vai para a frente”. Mas ressalta: “É importante que a candidata [Marina] diga de maneira clara o que ele [Beto Albuquerque] está dizendo”.
Com mais de 50 anos de atuação no agronegócio, Roberto Rodrigues defende fundir os ministérios da Agricultura, do Desenvolvimento, da Pesca e do Meio Ambiente em apenas um: o Ministério da Agricultura, Floresta e Pesca. O objetivo seria reduzir a “dispersão de recursos” e harmonizar estratégias. Afirma ter ouvido uma concordância a respeito por parte de Beto Albuquerque.
A seguir, trechos da entrevista realizada em 18.set.2014, no estúdio do UOL, em São Paulo:
Folha/UOL – O ex-presidente Lula, no seu primeiro mandato, falou muito no desenvolvimento de biocombustíveis. A partir de 2007, quando a Petrobras confirmou a existência do pré-sal, o tema foi relegado a segundo plano. Como essa guinada afetou o setor de cana-de-açúcar?
Roberto Rodrigues – Duramente. E não foi o pré-sal o ponto de inflexão desse processo de desprezo pelo setor. A crise de 2008 também afetou o setor fortemente, por causa da equação de preços entre gasolina e etanol. Naquele tempo, nós estávamos crescendo 10% ao ano, de 2003 a 2009. Depois, começou a cair 1% ao ano, uma situação horrorosa. Muitos investimentos nacionais e estrangeiros atraídos para o setor pelo próprio presidente Lula, pois o etanol era a menina dos olhos dele, se endividaram com a redução da renda, secas sucessivas e a redução da Cide [Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico]. E com a manutenção da gasolina com preços estabilizados para combater a inflação, gerando prejuízo também para a Petrobras. Houve um desastre brutal. Hoje há mais de 60 usinas paradas, das quais mais da metade está em recuperação judicial e 50 mil empregos perdidos na cadeia produtiva.
O que precisaria ser feito para recuperar esse setor?
Isso pode ser feito em duas etapas. A primeira é recuperar a renda com a volta da Cide. Isso resolve o problema da renda, mas não a retomada de investimentos, porque a dívida do setor hoje total é igual ao valor de uma safra inteira. Não se consegue investimento só com a retomada da renda. Tem que ter um programa de investimentos.
Por exemplo, hoje praticamente 80% da safra de cana no centro-sul é colhida mecanicamente, quando a cana é crua. Antigamente, o corte manual exigia a queima da cana. A cana cortada crua deixa no solo uma quantidade enorme de palha seca, que fica no terreno. A palha do Estado de São Paulo e de Minas Gerais somadas, queimadas em caldeiras de usina, que já estão disponíveis, representa energia igual a uma Belo Monte, sem nenhum problema ambiental, sem nenhum problema de índio, ninguém atrapalhando o processo.
Um programa de financiamento de mudanças nas caldeiras das usinas daria uma injeção de energia extraordinária, exatamente entre maio e outubro, quando as represas são mais vazias.
A PALHA DO ESTADO DE SP E DE MG SOMADAS REPRESENTA ENERGIA IGUAL A UMA BELO MONTE, SEM NENHUM PROBLEMA AMBIENTAL, SEM NENHUM PROBLEMA DE ÍNDIO, NINGUÉM ATRAPALHANDO O PROCESSO.”
Mas para fazer isso do que depende?
Tem que ter um plano de investimento. Vamos financiar via BNDES quem quiser trocar a caldeira. A proposta já está pronta.
Quanto custaria isso para o BNDES?
É muito difícil dizer, porque há usinas e usinas. Há usinas que moem 10 milhões de toneladas e usinas que moem 1,5 milhão de tonelada. A caldeira para cada uma é diferente. E já existem usinas com caldeiras preparadas. Tem que fazer um estudo mais preciso para dar uma resposta de quanto vale isso.
Mas mesmo isso é apenas um começo de conversa. É preciso olhar no longo prazo um Proer [Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional], porque tem hoje empresas que nem com a Cide, nem com investimentos em caldeira talvez não consigam sair da crise. Então, é preciso olhar de uma maneira muito mais abrangente com especificidade para cada região do país.
Há muitos anos há animosidade entre o agronegócio e o setor ambientalista. Como está a disputa política?
Talvez o símbolo dessa animosidade seja o Código Florestal. É uma discussão de mais de 10 anos que confluiu numa legislação que não era a melhor possível. Mas tem uma característica positiva: ninguém gostou, nem ambientalistas nem agricultores.
Desagradou-se a todos?
Todo mundo ficou infeliz. Eu acho isso ótimo, porque se só um lado achasse isso, o outro teria sido prejudicado no processo. Como ficou equilibrado houve um arrefecimento na animosidade entre os setores.
Copacesp Cooperativa dos Produtores de Cana, Aguardente, Açucar e Álcool do estado de São Paulo