“O Proer não é unânime na Unica. É uma coisa de longo prazo, não de curto prazo”
A frente do conselho de administração da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica), Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura de 2003 a julho de 2006, foi escolhido porta-voz do setor sucroalcooleiro para discutir com o governo federal estratégias para tentar reverter a crise aguda pela qual as usinas de açúcar e álcool passam desde 2008.
Entre as alternativas, Rodrigues é a favor da reedição do Proer (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional), implementado pelo governo Fernando Henrique Cardoso para ajudar os bancos, mas adaptado às usinas.
Liderança do agro-negócio e defensor ferrenho do cooperativismo, Rodrigues também é a favor de políticas mais claras para a agricultura. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Estado.
O cenário para 2015 é considerado desafiador. Quais os desafios para o agronegócio?
Eu diria que tem três ou quatro temas relevantes. Um deles é o ajuste fiscal que terá de ser feito. Tem de ser um ajuste severo, que implica aumento de impostos. O segundo tema tem a ver com o primeiro. Como o ajuste fiscal será seguido de um aperto monetário, muito provavelmente o crédito será mais seletivo e, eventualmente, mais caro. Significa que empresas e setores que estão com dificuldades maiores terão piores condições de receber crédito para sair da crise. É o caso do sucroenergético. Então, temos um cenário de redução de margem para 2015. Soma-se a esse cenário um aumento de custo de produção por questões cambiais, tributo mais caro, crédito mais difícil. Mas não vejo um ano dramático em 2015.
Por quê?
Porque as principais commodities tiveram resultados positivos nos últimos três ou quatro anos e o setor está relativamente capitalizado. Não o setor como um todo – há agricultores e empresas em dificuldades muito sérias, que vão sofrer bastante. Minha preocupação maior é em 2016, uma vez que em 2015 ainda teremos colchão de renda e poupança realizados nos últimos anos, que reduz o risco de quebradeira. Mas em 2016 esse risco aumentará, seja porque a tendência é de continuação de queda dos preços das commodities em função do estoque mundial crescente e porque a questão cambial vai incorrer em aumento de custo de produção. Então, em resumo, 2015 não é um ano de margens folgadas, de maneira geral, mas não é um ano trágico para as principais commodities (grãos).
Quais serão os setores mais afetados?
O de suco de laranja será um deles. O consumo mundial diminuiu com a crise de 2008 e o suco de laranja sofre concorrência muito forte com outros sucos e águas, que viraram coqueluche. A crise também foi agravada por doenças sobre os laranjais, e o combate tem elevado os custos. O da cana-de-açúcar é de longe o mais sofrido. Embora exista uma sinalização da nova equipe econômica de que teremos um retorno de uma parcela da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide), o que pode dar oxigenação para parte do setor, nem todas as usinas serão salvas, nem que a Cide viesse como antes (R$ 0,28 centavos por litro de gasolina). O setor deve 110% da safra.
O sr. fez parte da equipe do governo Lula, que estimulava a agroenergia. No governo Dilma Rousseff, houve mudança de diretriz para o setor. O governo deixou de acreditar no etanol?
Essa é uma pergunta que fazemos todos os dias. O que aconteceu? O presidente Lula atraiu investimentos. As empresas estrangeiras vieram para o Brasil atraídas pelo governo e também convencidas pelo discurso de que o País poderia ser líder mundial desse processo. O discurso gerando emprego, melhorando o meio ambiente, reduzindo aquecimento global, melhorando a saúde pública, sem falar no risco dos países que não têm petróleo. O álcool poderia ser uma saída. Ninguém consegue entender o que aconteceu com a presidente da República, que sequer conversa com esse segmento. Ela conversa com pessoas, líderes, empresários, não com segmento de forma articulada.
À frente da Unica, o que o sr. pode agregar para o setor retomar a importância que já teve um dia?
Logo depois de ser eleito presidente do conselho (em maio de 2014), procurei o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, que era a interlocução apropriada naquele momento. E ele realmente deu um empurrão nas questões emergenciais, como o Prorenova (financiamento de renovação de canaviais), crédito para o setor, estudo da mistura de etanol na gasolina (de 25% para 27,5%). Ele assumiu essas questões, que evoluem graças ao trabalho dele. No entanto, nada disso tem resultado econômico, que é o maior problema, que é a margem vis a vis à gasolina, que fica complicada ainda pelo fato de que a oferta mundial de açúcar cresceu, com maior oferta da Tailândia e da índia. Há um desequilíbrio total do setor. Como o Brasil é o maior produtor mundial de açúcar, então o desastre é maior ainda para as exportações brasileiras.
O que se faz neste caso?
Uma ação tem de ser desenvolvida porque a Tailândia está subsidiando fortemente seu açúcar. Estamos discutindo na Unica a ideia de entrar com um painel contra a Tailândia, que foi nossa aliada contra a União Europeia no passado. Esse é um tema estratégico tecnicamente complexo. Estamos tratando a crise em duas linhas. O primeiro emergencial. Uma solução rápida para o problema de renda, que é a devolução da Cide, que não sabemos como e quando ela virá, mas possivelmente ainda em janeiro, e outras estratégias de longo prazo.
Mas a Cide resolveria o problema?
Depende de três variáveis do governo, que é arrecadação, eventual impacto da inflação e preço da gasolina. Com o petróleo caindo, a queda dos preços da gasolina fica difícil de sustentar. Essas três variáveis estão sendo discutidas. Mas isso tampouco é suficiente. Estamos trabalhando em uma estratégia definitiva para o etanol. Essa estratégia passa pelo estabelecimento concreto pelo País, Estado, nação, de qual é a matriz energética que o Brasil quer ter e deve ter. E essa definição dará então o tamanho da agroenergia na matriz energética. Tem de discutir visão estratégica com os distribuidores de combustíveis (Sindicom), produtores de equipamentos, Anfavea (montadoras), produtores de petróleo, que precisam discutir plano de longo prazo. Nós queremos definir o que a sociedade brasileira quer e o que nós podemos fazer por ela adequadamente.
A cadeia é unida? A Anfavea, por exemplo, criticou elevação da mistura de álcool na gasolina.
Não é uma conversa trivial. As montadoras apoiam o setor, mas nunca desenvolveram um motor para o carro a álcool. O petróleo não olha o álcool como amigo, mas como concorrente. E olha o anidro como aliado. O hidratado é olhado como concorrente. É uma conversa que vai perturbar interesse de vários segmentos, países que fazem etanol de outros cereais. Tem de ter um olhar estratégico, de interesse nacional. Inclusive olhando no longo prazo, se nosso papel será o de suprir álcool para o mundo ou se o de vender tecnologia para países tropicais. Podemos vender o know how, que é mais valioso.
O que deve ser feito no longo prazo?
Tenho sugerido ao governo investimento vigoroso do BNDES em mudanças das caldeiras das usinas para que todas possam fazer bioeletricidade com bagaço e palha de cana. Sob o ponto de vista dos governos estaduais, é importante porque estamos vivendo uma crise de água que pode ter repercussões na oferta de energia elétrica. Tive uma conversa (no fim de novembro) com o governador de São Paulo Geraldo Alckmin sobre isso. Os nove Estados produtores de cana cobram ICMS diferente. Todos deveriam se unir em uma ação interestadual na busca de projetos de interesse nacional. Defendo a tese de um Proer para o setor. É uma coisa simples, mas é muito dinheiro, mas necessária. Mas vai ter de separar quem fez certo e quem fez errado. Não pode tratar do mesmo jeito todo mundo. Há empresas que cometeram erros estratégicos.
Esse Proer não teria objeção?
O Proer não é unânime na Unica. É uma coisa de longo prazo, não de curto prazo. Tem de examinar quem é quem, empresas envolvidas no processo. Tem de separar o curto do longo prazo. Meu papel é desenhar estratégia de longo prazo para o papel da agroenergia na matriz energética do País.
Essas discussões poderiam ser debatidas com a ministra da Agricultura, Kátia Abreu?
A Kátia é competente, conhece bem o assunto. Vou mais além. Nós temos Armando Monteiro, de Pernambuco (Desenvolvimento), que conhece o setor, e o Joaquim Levy, na Fazenda, que esteve no governo durante o apogeu do setor. Vamos ter governo no segundo mandato com outra condição para tratar do assunto.
Existe uma política coesa para o agronegócio hoje?
Não.
Por quê?
Por incompetência do governo.
Deste ou dos últimos governos?
A última vez que houve uma estratégia para o agronegócio brasileiro completa e articulada foi no governo Geisel, com criação da Embrapa (empresa de pesquisa agropecuária), Embrater, política de preços mínimos, crédito rural. Naquele governo, que tinha uma estratégia nacional para ocupação da fronteira agrícola, era estratégico. Houve depois ações boas e importantes, como o Moderfrota, por exemplo, mas política articulada foi há 40 anos. O que acontece hoje? Não tem política agrícola hoje? Tem, claro que tem. Mas qual é o problema? Temos política negociada dentro do Ministério da Agricultura, muito sólida, por câmaras setoriais – eu criei 20 câmaras setoriais. Temos políticas prontas para implementar. Mas temos segmentação. Os instrumentos estratégicos estão dispersos em vários ministérios e agências. Se não houver uma coordenação de tudo isso, o ministro da agricultura fica refém.
Como a agricultura pode ser mais produtiva sem provocar crise hídrica?
Com tecnologia. Em relação à água, tenho defendido a recomposição da Mata Atlântica ao redor das represas. Reflorestamento é fundamental para que as nascentes sejam preservadas e se garanta água local mais produtiva.
O sr. ficou na pasta da Agricultura entre 2003 e 2006. O sr. saiu de lá frustrado?
Entramos com dólar a R$ 4 e caiu para dois e pouco reais em seguida. Simultaneamente, preços altos das commodities, porque havia oferta menor que demanda mundial, mas os preços caíram em dólar. A produtividade despencou por causa de seca. Os preços caíram, o câmbio atrapalhou a produção, tivemos caso de aftosa em Mato Grosso do Sul. Com isso, perdemos 47 mercados exportadores. A gripe aviária reduziu a comercialização de grãos. Foi uma quantidade de fatores contrários que geraram uma demanda de medidas públicas insuportáveis. Por outro lado, tinha ido para o governo para fazer reforma estrutural e fiz. Criei áreas estratégicas para agricultura, com dados, reforcei defesa, área comercial. Fiz uma reforma no ministério, montei a máquina para agricultura preponderante. Não consegui resolver todas as coisas e a crise era muito pesada. Prefiro não falar dos dois a três meses finais. Vou um dia escrever sobre isso. Até que ficou evidente que eu não conseguiria fazer tudo o que eu tinha para fazer. Fiz 40% do que queria, mas impedi que muita besteira fosse feita.
Copacesp Cooperativa dos Produtores de Cana, Aguardente, Açucar e Álcool do estado de São Paulo