15/04/14 – O processo de apreensão que afeta o Brasil tem consequências nefastas na percepção internacional do que seja o país como potencial hospedeiro para investimentos internacionais.
Apesar de ter recebido mais de US$ 64 bilhões de investimentos estrangeiros diretos em 2013, o país está perdendo a condição de preferido dos investidores internacionais. Essa perda de “preferência” já vem ocorrendo há algum tempo, inclusive com frequentes artigos negativos na mídia internacional, inclusão na lista das economias mais vulneráveis segundo um índice calculado pelo Fed e, finalmente, com o rebaixamento da avaliação de risco pela agência S&P. Mais até do que essa percepção externa a respeito de uma derrocada do país, impressiona o nível de desânimo geral dos interlocutores em qualquer roda de empresários dos centros econômicos do país.
O clima de pessimismo é tão grande que temos a obrigação de focar na questão crucial: será que o Brasil está em situação calamitosa, indo de mal a pior?
A história econômica do Brasil sempre foi marcada por várias crises, alimentadas por uma inflação incontida, gastos públicos descontrolados e com um recorrente desenlace: o esgotamento das reservas internacionais e o espectro de calote na dívida externa. Ora, a simples inspeção dos números mostra que nada semelhante está ocorrendo e que, ao contrário, os fundamentos macroeconômicos do país são muito mais fortes e sólidos do que os de outras economias mais avançadas.
Senão vejamos. A dívida bruta do sistema fiscal está em patamar relativamente estável e tolerável (em torno de 57% do PIB, 10 pp abaixo da verificada há dez anos e inferior à média dos países da zona do euro, de 92,6%), com superávits primários relevantes nos últimos anos e déficit nominal semelhante ao das economias mais austeras. A inflação encontra-se dentro das bandas estabelecidas pelo regime de metas há vários anos (2,5 a 6,5%) e, ainda que flertando com o limite superior, não dá sinais de buscar uma trajetória explosiva, diferentemente do que ocorre em vários países vizinhos.
No sistema financeiro, as questões institucionais que limitavam a queda da taxa de juros básica da economia (leia-se: rendimentos da poupança) foram resolvidas sem maiores problemas; o sistema financeiro brasileiro é um dos mais sólidos do mundo (basta ver que o índice de Basileia dos bancos brasileiros é de 16,6%, nível muito superior ao mínimo regulatório internacional, que é de 11%); a concessão de crédito está ocorrendo de maneira mais seletiva, o que, em conjunto com a melhora do perfil do endividamento, tem permitido a redução das taxas de inadimplência (de 3,9% para 3% no último ano e meio).
Nas contas externas, as reservas de quase US$ 400 bilhões são mais do que suficientes para fazer frente às necessidades de pagamento tanto da dívida externa quanto para cobrir mais de quatro anos de déficit em conta corrente e os investimentos diretos e operações de renda fixa continuam afluindo ao país, evitando a desvalorização da moeda local, como vem ocorrendo alhures. A taxa de desemprego encontra-se no menor patamar desde quando se tem registro (5,4% em 2013, vs 11,9% da zona do euro e 6,7% nos EUA) e o salário real está nos seus picos históricos. É notório que houve uma revolução no âmbito social, onde mais de 30 milhões de pessoas deixaram a classe E nos últimos dez anos e quase 35 milhões ingressaram na classe C, ao mesmo tempo em que o rendimento médio real aumentou em um terço, gerando um novo e expressivo contingente de consumidores.
Muito foi feito nos últimos 15 anos, portanto, mas é preciso determinação para que o país não saia da rota e prossiga no caminho certo.
Não obstante, os problemas do país, tanto econômicos como sociais, são evidentes a todos.
A agenda prospectiva deveria focar-se na resolução desses problemas, dando uma resposta firme primeiramente ao povo brasileiro, que merece um compromisso ou um pacto que abranja várias gerações para fazer frente à carência de infraestrutura, à carga tributária elevada, à burocracia desalentadora, à falta de segurança e aos sistemas de saúde e educacional ineficientes. Em segundo lugar aos investidores institucionais e aos mercados, que pedem foco nas reformas, transparência, execução dos planos de investimentos nos tempos certos, gastos e as receitas públicas numa trajetória tranquilizadora. Esta é uma oportunidade para o setor privado livrar o país dos pontos de estrangulamento, tal como tem sido feito nas concessões (que não só devem melhorar a questão da infraestrutura como, de quebra, trazer importantes inovações tecnológicas).
Enfim dando uma resposta à indústria brasileira, que precisa ganhar competitividade enfrentando seriamente: o incremento do “custo Brasil”, a questão energética, a reforma fiscal e tomando medidas que incentivem as exportações. É este o momento do “Fazer” e do “Comunicar”, interagindo construtivamente para restabelecer a credibilidade e a confiança.
Paolo Dal Pino
Fonte: Valor Econômico
Presidente da Pirelli para a América Latina
Copacesp Cooperativa dos Produtores de Cana, Aguardente, Açucar e Álcool do estado de São Paulo